sexta-feira, 16 de julho de 2010

DESABAFO DE UM MORADOR DE RUA!!


Ser morador de rua tem muitos preços e um deles é a invisibilidade. Quase todas as pessoas que passam se quer te olham, quando o fazem, é com medo e nojo.

Percebi que o preconceito é constante. Como ainda não sabia que estava falando com um morador de rua, um funcionário da rodoviária me respondeu que tinha banheiro, mas quando perguntamos onde fica o SOS, ai a coisa mudou, ele descobriu quem eramos e ao pedir novamente, a resposta foi que estava fechado.

Muitos veem mas não fazem nada, simplesmente ignoram e fingem que não existimos, outros talvez por serem mais acostumados com a presença de um morador de rua até colaboram, em geral uma moedinha de vinte e cinco centavos (acho que porque ela parece a de um real), ou mesmo uma coisa para comer, como em uma ocasião que em vez de dinheiro, um dono de um bar gentilmente me deu uma singela esfirra.

Vi que aquela noite, pelo menos, não morreríamos de fome. Já eles buscam esta certeza diariamente.


Na hora de dormir


Engana-se quem pensa que todas as pessoas que moram na rua são alcoólatras e usuários de droga. I isso até acontece, mas eu diria que o álcool é um aditivo para dar coragem e ânimo para quem tem que encarar os muitos perigos da noite. Lembro de um caso que me chocou muito na época, uma terrível chacina ocorrida na cidade de São Paulo, em que sete moradores de rua foram brutalmente assassinados sem motivo algum, isso sem falar da já famosa chacina da Candelária.

O galo cantando e o dia quase clareando, percebi que a partir desta noite algo em mim tinha mudado. Agora sei - é muito triste ver que muitas pessoas acham tudo isso normal e muitos já se acostumaram com esta dura realidade, mas para quem foi para fora viver de dentro esta situação, como fizemos, sabemos que não é bem assim. Quando paramos de lutar uns pelos outros, contra injustiças, é neste momento que perdemos nossa humanidade.

Não tenho dúvida, o mais complicado é a total insegurança de dormir ao relento, pensar no risco de que algo de mal possa acontecer, acabou não me deixando dormir ao lado de um real morador de rua e literalmente debaixo de uma ponte. Tirei apenas um leve cochilo.

Se conseguisse dormir, gostaria de sonhar que um dia teríamos um país com menos desigualdades sociais, sem desemprego, que todos tivessem condições de ter uma vida mais digna, tanto para si quanto para sua família, sem distinção de raça, cor, classe social, ou qualquer outra condição.

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